“Corremos muito e demos combate até o final: jogamos e vencemos”

Por Marcel Souza, atleta do BH Rugby Quad

 

Marcel Souza

Depois de um ano de treinos, incluindo um campeonato regional nesse período, fomos para o IV Campeonato Brasileiro de Rugby em Cadeira de Rodas completamente cientes de nossas limitações e potenciais técnicos, materiais e físicos. Chegamos com a expectativa de melhorarmos nossa posição em relação ao ano passado e de mostrar para a comunidade do Rugby em Cadeira de Rodas do Brasil que o esporte é levado a sério em Belo Horizonte. Com esforço e luta, conseguimos concretizar essas expectativas.

Chegamos sabendo da ameaça da segunda divisão e assumimos a responsabilidade de ter que vencer times que nos derrotaram no ano passado. Os jogos do campeonato começaram na quinta-feira (14/05), mas a quarta-feira (13/05) foi um dia tenso. Era o dia da classificação* dos atletas que ainda não possuíam registro oficial da ABRC, no nosso caso, o Davi, o Marcos e o Esdras. Foi o dia da primeira decepção e da primeira surpresa. A classificação do Marcos foi dentro do esperado, 2.0. Mas a do Davi nos frustrou: a banca avaliadora o classificou como 3.0, o que atrapalhava muito nosso time taticamente. Isso só serviu para aumentar a ansiedade e acabou anulando a boa surpresa da classificação do Esdras, que recebeu 2.5, uma pontuação menor do que a que esperávamos.

Bom, a quinta-feira chegou e era dia de estréia: jogaríamos contra a Andef/RJ na partida de abertura do campeonato. Fomos para a quadra sem conhecer muito bem o adversário, mas o time que entrou – André (3.0), Davi (3.0), Julierme (1.0) e Everton (1.0) – conseguiu se impor logo de cara e abriu alguns pontos de diferença. No segundo quarto, entretanto, o jogo ficou mais difícil e a Andef empatou a partida. É claro que o adversário melhorou sua marcação, mas boa parte da culpa pelo apagão foi nossa, talvez pelo cansaço, já que o Humberto preferiu não fazer substituições, ou talvez porque algumas jogadas não deram certo e o time se desestabilizou mesmo. O que importa é que voltamos para o terceiro quarto melhores e conseguimos vencer no final, por 34 a 29.

Saímos desse jogo satisfeitos e confiantes, mas sem euforia, já que, à tarde, jogaríamos contra o time do Tigres/SP, o vice-campeão da edição de 2010. Tínhamos completa ciência da disparidade técnica entre nós e eles, mas nos propusemos a nos esforçar ao máximo e absorver toda a experiência que a partida iria proporcionar. Infelizmente, tetraplégico não transpira e, por isso, não posso dizer que deixamos até a última gota de suor em quadra, mas corremos muito e demos combate até o final. Iniciamos jogando de igual pra igual, mas a superioridade do outro time prevaleceu e perdemos por 48 a 14. A quinta-feira acabou e terminamos o dia com a sensação de dever cumprido porque ganhamos um jogo e demos combate contra o vice-campeão. Fomos dormir ouvindo comentários de atletas de outros times sobre a nossa evolução e ansiosos pelo dia seguinte.

Na sexta-feira (15/07), tínhamos apenas um jogo, mas era contra o bicampeão, Adeacamp/SP. Sabíamos também da nossa realidade e que, mais uma vez, teríamos que absorver tudo que fosse possível daquela experiência. Imagine jogar contra uma equipe que simplesmente anula tudo o que você tenta em quadra, exercendo uma pressão que vai minando o seu ânimo a cada erro que te força a cometer. Foi isso que aconteceu, mas o Humberto nos lembrou a razão de estarmos ali: deixar em quadra todo o fôlego que tínhamos. Marcamos oito vezes e comemoramos cada uma delas como se fosse o gol da vitória numa final. Infelizmente, tomamos 81 e fomos nos preparar para o sábado.

Sábado (16/07) talvez tenha sido o dia de maior decepção. Jogamos pela manhã contra o Omda/SC, um time que possui o melhor atacante, Rafael Hoffman (2.0), e o melhor defensor do campeonato, José Raul (1.5). Conhecemos esse time, foram os mesmos jogadores que venceram o Campeonato Regional que aconteceu em Belo Horizonte no final de 2010. Foi impressionante ver a evolução desses dois atletas em relação ao que demonstraram no ano passado. Sabíamos que a partida seria difícil, mas queríamos mostrar que tínhamos evoluído e que poderíamos ser um adversário melhor. Por vários motivos, não tivemos êxito e perdemos a partida por 54 a 13.

Mas aquele dia foi difícil especialmente por causa do jogo da tarde. Foi a primeira vez que a arquibancada encheu de familiares, amigos, desconhecidos e parte do lindo e entusiasmado time feminino do BH Rugby. Jogaríamos contra o ADGE/DF e criamos uma esperança – que se revelou ilusória depois – de que poderíamos vencê-los. Nada deu certo durante o jogo: nos afobamos, nos precipitamos, não nos recompusemos e perdemos por 55 a 14. Ficamos tristes por isso ter acontecido em frente a uma torcida que esperávamos ver desde o primeiro dia, mas o tombo nos trouxe de volta à realidade. Fomos dormir preocupados com o dia seguinte, primeiro, pela obrigação de vencer no domingo para nos manter na primeira divisão e, segundo, pelo receio de uma não convocação do André para a seleção brasileira ao final do campeonato.

O domingo (17/07) era o dia em que tudo se resolveria. Nossa permanência na primeira divisão seria decidida, sairia o campeão e a seleção seria convocada. Nosso único jogo era o primeiro do dia e estava marcado para as 8h. Acordamos às 5h30 para estarmos em quadra prontos para o aquecimento às 7h30. Jogaríamos contra o Rio Quad/RJ, que, se perdesse, estaria rebaixado. Não estávamos preocupados com a situação deles. Nosso foco estava direcionado para a missão de vencer, até mesmo porque corríamos o mesmo risco. Jogamos e vencemos. Foi mais difícil do que esperávamos porque cometemos muitos erros, mas vale a pena ressaltar a capacidade que tivemos de nos recompor e perseverar até o final. O jogo teve o placar apertado o tempo todo e terminou 35 a 32 para nossa alegria. Nesse dia, alguns familiares e amigos acordaram cedo em pleno domingo para nos apoiar, o que deu a essa vitória uma satisfação maior ainda.

O domingo também foi o dia de assistir ao jogo que definiria o campeão entre os dois melhores times do país: Adeacamp/SP e Tigres/SP. Ninguém escondia a expectativa de ver o time de Campinas campeão, já que era o melhor, mas havia, sim, uma esperança de que os paulistanos fossem adversários mais difíceis. Deu a lógica: o Adeacamp/SP foi campeão com facilidade, com um placar de 72 a 24. No nosso caso, vê-los jogar só nos motiva e revela que temos um longo caminho no esporte ainda.

Na cerimônia de encerramento, aconteceria a convocação dos 16 atletas que passariam a compor a base da delegação da seleção brasileira no Pan-Americano, que acontecerá em Bogotá, na Colômbia, no final do ano. Desses 16, somente dez ficarão na seleção que irá viajar para a competição. Naquele momento, nossa expectativa estava toda voltada para a convocação do companheiro André e foi com grande alegria que ouvimos o nome dele ser chamado.

Sem querer ser arrogante ou presunçoso, é necessário parabenizar, antes de tudo e de todos, os atletas que, há um ano, vêm se dedicando ao esporte. Vale citar que André, Everton, Kadu, Léo, Julierme, Betinho, Esdras, Marcão, Davi e eu merecemos todo reconhecimento e elogio pela evolução.

Parabéns ao Humberto e ao Diego pela paciência, pela disposição em aprender junto com a gente e pelo companheirismo. Ao Daniel, companheiro mais recente de caminhada, que tem estado sempre junto e nos apoiando.

É necessário agradecer a Cláudia e ao Superar por nos proporcionar material, espaço e apoio para treinar. Além de agradecer ao Belo Horizonte Rugby Clube pela acolhida.

Que, para o próximo campeonato, tenhamos mais apoio, mais material, mais disposição, mais compromisso, mais dedicação, mais comunicação e mais vitórias!

 

Foto por Joon Ho Kim / Adeacamp/SP

 * O Rugby em Cadeira de Rodas é um esporte específico para tetraplégicos, pessoas que possuem comprometimento de pelo menos três dos membros do corpo. Por isso, os atletas são classificados de acordo com seu nível de limitação, sendo que a pontuação varia de 0.5, o mais, a 3.5, o menos comprometido. O esporte é disputado com quatro jogadores em quadra, e a soma da pontuação da equipe não pode ultrapassar oito pontos.

EM by Alessandro Travassos | BH Rugby

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