O RUGBY NÃO É PARA QUALQUER UM – por Alfredo Sorrini

O RUGBY NÃO É PARA QUALQUER UM

Revisão: João Gualberto de Araújo Júnior e Daniel Alejandro Marolla

Todos os “rugbiers” conhecem esse conjunto de palavras, essa misteriosa expressão: “o rugby não é para qualquer um!” Cada um, ao longo de sua carreira, emprega a essa frase diferentes significados. Talvez signifique que o esporte é apenas para pessoas que têm coragem, pensa um, para pessoas que possuem abnegação, orgulho, raça, espírito guerreiro, pensa o outro. Aqueles que têm músculos como eu, são os que menos entendem a modalidade. A maior parte, contudo, termina sua passagem pelos campos de jogo, ou melhor, pelo rugby jogado, sem compreender ao certo essa sentença.

Frodo, defendendo as cores do Reno Rugby de Bologna, Itália.

Eu, Alfredo Sorrini, vulgo “o Chino”, “Alfio”, “o Italiano” ou “Frodo”, dependendo do time pelo qual joguei, não fugi a essa regra. Parei de jogar rugby em 2003, empurrado por vários acidentes, entre eles, o pior de todos: a velhice.

Sempre me lembro da primeira vez em que tive que suportar um golpe pesado durante uma partida. A cara inchou e o olho desapareceu dentro da máscara makonde na qual tinha se transformado meu rosto. O médico correu ao campo, prestou o que ele pensava serem os primeiros cuidados e depois me disse: “Pronto, vamos pra fora”.

Olhei para ele, aliás, olhei não, “ciclopiei” para ele com meu único olho surpreso e respondi: “Vamos pra aonde?” O médico, já sem paciência, falou que eu não podia continuar daquele jeito, e eu retruquei: “Não tem como! Isso não existe, inventa outra”, e voltei para o jogo.

O médico voltou para o banco, balbuciando alguma coisa do tipo “esse povo é um bando de loucos! Nunca, nunca mais vou cuidar de um time de rugby”. De fato, nunca mais apareceu.

Mas aquilo que adversários fortes e valentes não tinham conseguido ao longo de 20 anos de rugby, conseguiu um velhote de barba branca chamado Tempo. Cheguei a Belo Horizonte em 2005, pois meu trabalho de pseudointelectual me levou primeiro a passar um ano em Portugal e, depois, outro no Brasil. O destino quis que velhos amigos me levassem para jogar um touch rugby com o bando do BH Rugby. Eles sorriam, todos bem humorados. O dia estava ótimo, ao contrário de minhas condições físicas, que eram péssimas. Mas, e daí, era só um touch, não iria acontecer nada demais. E não é que aconteceu? O touch virou rugby de verdade… faz parte.

Cabeleira, Frodo, Igão e Batatinha, em Poços de Caldas.

Minha experiência ajudou muito. Me posicionei de número dez, abertura. Um passo e bola para direita, outro passo e bola para esquerda. Chuta, abre, em suma, quase que acabava o jogo sem tacklear nem ser tackleado, até que um dos meninos rasgou a camiseta do meu velho time italiano. O drama! O moleque, sempre sorrindo, sempre bem humorado, sentenciou: “Isso é rugby, irmão. Camiseta rasga!”

Senti que esse menino estava me sacaneando. “Pronto, vou jogar. Embora seja só por esses cinco minutos, vou jogar”. Orgulho, pertença, defesa de valores, em resumo, sensações, ou melhor, SENTIDOS!

Nem um mês havia se passado e eu já estava no ônibus rumo ao Rio de Janeiro para jogar com uma equipe francesa. Os franceses desceram do ônibus rindo e cantando, mas a mim não enganavam. Conheço muito bem esse povo, culto e refinado, mas ao mesmo tempo guerreiro e bárbaro. No campo, são os piores jogadores que se pode encontrar: jogam pra valer, são espetaculares, mas não gostam de apanhar, e se houver socos, haverá socos e mais socos.

Antes do jogo, o cheiro da sifcamina e outros cremes e óleos aquecedores, vários produtos que todo rugbista utiliza dentro de sua cabala pessoal. “O cheiro”, quanta saudade! Quase deu para chorar. O cheiro… eu nem sabia que o meu olfato estava tão preparado para enviar estímulos de lutas para o meu cérebro apenas sentindo esse cheiro. Estímulos pavlovianos ou simplesmente sensações… SENTIDOS!!!

Antes do jogo, Rafael, um companheiro francês que jogava no BHR, se vira e me fala: “Já vimos que você é bom de corrida, de cerveja e de papo. Agora, vamos ver se você é bom de porrada!” O filho da mãe tinha estimulado o meu orgulho com umas poucas palavras. “Chega de palavra: concentração e preparação para a luta”.

Brindando pela amizade, Frodo é Igão no bar antes da viagem.

”O rugby são borboletas na barriga”, ensina meu amigo Juan Carey. Então, silêncio. Os verdadeiros guerreiros lutam com sentidos, não com gritos. Isso não presta para o rugby, isso é apenas para briga de rua… Silêncio, um silêncio que prepara os SENTIDOS.

O rugby é um jogo misterioso, braços, pernas, cabeça, um quebra-cabeça dinâmico e louco para quem está fora, mas não para quem está no campo. Quem está ali conhece o seu companheiro pelo cheiro, pelo sentido, pelo jeito. “Agora, é preciso empurrar sem pausa. Agora, para e empurra para direita. Agora, para frente”. É minha barriga que ordena? Não, não pode ser o cérebro. “Agora, é preciso segurar a bola com as mãos, nos braços”. O adversário tenta extirpá-la. É preciso levantar os cotovelos e fechar os dentes. “Não vai tirar a bola daqui nem morto”.

“Agora não, é preciso esticar, entregar a bola como se fosse uma criança. Não vejo nada, estou no meio de um emaranhado de braços, pernas e cabeças… mas conheço, aliás, não conheço, sinto. Sinto que essas mãos que estão querendo tirar a bola do meio da batalha para entregá-la aos arqueiros de fora, a linha, os que correm costurando o campo como se fossem alfaiates–mestres, são amigas”.

“Então, deixo a bola, a entrego. Daqui a pouco, ela vai sair para os diretores da orquestra. Podia ter deixado aquela bola de olhos fechados, pois não tem como, esse pedido, esse empurrão é do meu amigo de luta”.

Até poderia dizer o nome de cada companheiro do scrum com que joguei ao longo da vida de olhos fechados, adivinhando a forma de empurrar ou de chegar a arrancar a bola das minhas mãos… SENTIDOS!

Quando terminou o jogo, o Rafael me convidou para uma cerveja e me disse: “Seu italiano do inferno, você joga pra caramba! Bem-vindo ao BH Rugby”. E eu me senti bem, como há muito tempo não me sentia.

Despedida do Frodo, terceiro tempo após jogo com Guanabara pelo Fluminense.

Voltando para Belo Horizonte, não sentia nenhum osso no lugar, mas, enfim, depois de anos, sentia outra vez o meu corpo. Cada músculo, cada osso que doía era uma volta à vida. O meu corpo voltava a gritar: “estou me sentindo”. SENTIDOS!

As canções, a camaradagem, a felicidade, era a mesma coisa de cada time de rugby, a mesma irmandade que tinha conhecido em outras latitudes. A língua e as canções eram diferentes, mas apenas isso. O resto estava todo igual: amizade, irmandade, lutar todos juntos pelo mesmo objetivo. As regras claras para um campo de rugby: você tackleia e sente orgulho, você amarela e sente vergonha… SENTIDOS!

Quando voltei para Itália, já sabia que daquela vez minha vida de rugbier, ou melhor, de jogador de rugby, tinha acabado realmente. Mas sabia com mais certeza que rugbier é para sempre. Nunca se sai da condição de rugbier sem sair da vida, porque, afinal, é isso que aprendemos no campo de rugby: aprendemos a sentir a vida.

Agora, penso já ter a resposta: o rugby não é para qualquer um! O rugby é para quem possui a capacidade de sentir tudo isso: sensações, dor, amizade, orgulho, luta, nobreza da alma, lealdade, em suma, não é para todos não, precisa ter SENTIDOS (e sentimentos).

BH FORÇA, BH RAÇA, BH RUGBY!

Frodo (Alfredo Sorrini)

Com o El Cabezón Marolla, após jogo com um time de publicitários franceses.

Eu tinha solicitado para nosso amigo Frodo que respondesse às mesmas perguntas que fiz para outros históricos do BH Rugby, mas sua humildade e sua postura de não se achar ninguém mais importante que qualquer outro do grupo me impediram de coletar esses dados. Mas eu insisti e ele me enviou este texto, esta declaração de amor ao jogo e à vida.

Agora, é minha vez de contar quem é de fato esse amigo italiano que apareceu um dia e nunca mais irá embora.

Frodo é um napolitano de raiz, aquele típico bagunceiro, que sabe encarar a vida com um sorriso, mas libera uma dose de sensatez, no meio de um caos organizado, que só um napolitano compreende. Um militante da igualdade e da justiça que ajuda o próximo como nunca havia visto alguém fazer sequer parecido. Um HOMEM modelo, a mostrar que nem tudo está perdido. Frodo é um professor, um mestre, aquele que te ensina a viver antes mesmo de te ensinar a ciência.

Para terminar, posso dizer que Frodo é um AMIGO, daqueles que deixam muitas boas lembranças em nossas vidas, muitas anedotas e muita saudade.

Daniel Alejandro Marolla.

EM by Alessandro Travassos | BH Rugby

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