BH Quad vs BH Rugby: relato de um ex-deficiente sobre um amistoso contra seus iguais

BH Quad vs BH Rugby: relato de um ex-deficiente sobre um amistoso contra seus iguais

Texto: João Gualberto Jr.

Fotos: Daniel Alejandro Marolla

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O convite foi feito pelo Humberto, o Careca Furioso, depois de um treino rotineiro do BH Rugby. Ele desafiou os atletas a encararem uma partida contra (talvez seja melhor ‘com’) os meninos do BH Quad, a equipe de cadeirantes do Belo Horizonte Rugby. Humberto, além de atleta do time masculino, é o treinador do time de quad rugby e, como fisioterapeuta e educador físico, comprou a briga em favor daqueles caras especiais. O amistoso seria, é claro, com todos sobre as cadeiras.

A peleja estava marcada para uma quarta-feira na quadra do Superar, programa da Prefeitura de Belo Horizonte, grande parceira do BHR nesse sonho de manter a equipe de portadores de necessidades especiais. A sede fica na avenida Nossa Senhora de Fátima, no Carlos Prates. Para quem quiser e puder, vale a pena conhecer.

Aliás, convém ressaltar que, até hoje, e infelizmente, o BH é o único clube de rugby do Brasil que tem um time de cadeirantes. Explique-se: todos os times de rugby em cadeira de rodas que existem no país são times de rugby em cadeiras de rodas e ponto final. O primeiro clube a fazer essa ponte entre andantes e cadeirantes foi o BHR e ainda não há outro exemplo. Andantes é como nós, que temos o privilégio de usar as próprias pernas para ir daqui para lá, devemos nos chamar nesse contexto. Parte do aprendizado daquela noite.

A preocupação do Careca foi justamente ativar essa ligação, ainda distante, sedimentada pelas rotinas semanais e pela geografia da cidade. Na quadra, prontamente se apresentaram Jorge Imparato, treinador da equipe masculina do BH, José Augusto, o Soldado, Renato Jacaré e Cabezón, que também atende por Daniel Alejandro Marolla. Dos quatro, Cabezón era o único já familiarizado àquele contexto. Ele, além do Careca, viu nascer e ajudou no parto do BH Quad, há mais ou menos um ano. E, por ter participado desse marco ocorrido em meio a uma oficina realizada no Superar, sabe as regras e faz suas visitas aos treinos regularmente. Já este repórter foi movido por curioso e para, a posteriori, produzir este relato.

Ouvir dizer é uma coisa. Presenciar é outra. O trabalho que antecede o treino não é moleza. Leva pelo menos meia hora para que todos os atletas estejam devidamente paramentados em suas cadeiras especiais e a brincadeira possa começar. É preciso transferir cada um de sua cadeira pessoal para a adaptada, de jogo, com as rodas enviesadas, mais próximas na porção superior e mais distantes na inferior. Depois, eles precisam ser fixados no equipamento por faixas na região da cintura e das pernas, para terem firmeza. E, por último, os jogadores passam cola de sapateiro nas luvas de borracha para ganhar aderência nas mãos.

Quem dá força em todos os treinos é o Diego Morais, instrutor do Superar, parceiro do Humberto na batalha semanal. E, enquanto os preparativos ocorriam, nós (eu também me arrisquei) tentávamos nos habituar ao novo veículo: como acelerar, parar em cima da linha e – o maior desafio – como mudar de direção. Acredito que nenhum de nós havia tido antes uma oportunidade de andar numa cadeira de rodas ou sequer sentado numa. Ainda mais naquelas tão específicas, preparadas. Dentro de instantes estaríamos confrontando, em um jogo, aqueles destemidos que são peritos na coisa. Era uma lavada que acenava no horizonte, quase tão retumbante quanto se enfrentássemos os All Blacks no gramado. Mas não foi tão feio assim…

Tudo em seu lugar, fomos para o círculo central para aprender o básico das regras. São quatro jogadores de cada lado e quatro tempos de oito minutos. A bola é parecida com a de vôlei, não é oval, porque quem tem a posse deve quicá-la pelo menos uma vez a cada dez segundos. É permitido fazer passe para frente, e o try, ou gol, vale um ponto. Não é preciso pressionar a bola no chão, basta passar a linha do in-goal com ela no colo. Já o tackle é liberado: eis uma forte manifestação do espírito do rugby. Se a cadeira capotar com o jogador nela, não importa. A partida continua e alguém do suporte entra para endireitar a vítima. Pois era isso em linhas gerais e estava compreendido.

Antes do relato do jogo em si, uma informação que faz toda diferença: o rugby para cadeirantes é restrito aos tetraplégicos. E a tetraplegia, para além da paraplegia, classifica-se com qualquer comprometimento dos membros superiores. Paraplégicos com domínio perfeito das mãos jogam basquete, modalidade que exige mais domínio da bola. Tetras jogam rugby, como nos ensinaram os cabeças da turma, conforme os padrões internacionais de classificação.

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Marcos Vinícius, o Açaí, era o juiz determinado para a partida, um dos únicos certificados em Minas pela Associação Brasileira de Rúgbi em Cadeira de Rodas (ABRC). Para não ficar muito desequilibrado, Humberto preferiu fazer um time composto exclusivamente por cadeirantes e o outro misto, tendo dois ou três andantes. Com o apito veio o choque inicial. Difícil acompanhar quem estivesse com a bola. Imprimir velocidade sem permitir que a roda derrape requer treino. Daí que os “novatos” faziam esforço, queimavam energia à toa e a cadeira não rendia.

Impossível não perceber de cara que o André é o destaque do BH Quad. Ele já era um atleta antes de sofrer o acidente de moto numa trilha de cross, anos atrás. Tem o gosto pela competição no sangue. Além disso, a lesão cervical dele é a que deixou menos sequelas em comparação com as dos outros dez atletas que treinam regularmente no clube. A percepção é a seguinte: parece que o cara transforma a cadeira num kart. Se vem em sua direção, já projeta a finta uns cinco metros antes e passa fácil. E, se passa, já era: o try é certo.

Como prova desse talento, ele está indo para o Rio de Janeiro junto com o Careca para uma oficina promovida pela ABRC no mês que vem. Atletas e técnicos de todo o país vão receber lá treinadores estrangeiros que são referências na modalidade. Bela chance de aprimorar.

Outra descoberta fascinante é a seguinte. O time é dividido em dois atacantes e dois defensores (normalmente aqueles que têm mais dificuldade em conduzir a bola). Se o jogo será reiniciado em um lateral ou da linha de trás, os defensores do outro time usam suas cadeiras para bloquear os atacantes adversários. Essa é a estratégia válida de marcação.

Para compensar nossa deficiência no manejo das rodas, criamos uma manha para não perdermos de goleada. Como era difícil pegar os caras na carreira, o jeito era ganhar terreno com passes longos, uma vantagem por termos firmeza nas mãos. Fazer isso é válido, mas pouco usual num jogo de quad rugby. Interessa mais partir em velocidade com a bola dominada e só passar para um companheiro desmarcado em último caso.

Foi graças a esse expediente que o time composto por atletas andantes conseguiu se aproximar do de cadeirantes no placar. No final, ficou 20 a 16 para o time BH Quad puro. A vitória deles era barbada, mas resultado não importa. A noite foi memorável. Grande aprendizado e grande diversão. Soldado foi o artilheiro entre os andantes, fez cinco tries. Jorgito, feito uma criança sobre um brinquedo novo. E o Jacaré, devo reconhecer, o mais habilidoso na cadeira e deu bons tackles nos rivais.

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No mais, percebi que os anfitriões também se divertiram – tanto que se empenharam muito em quadra para nos bater, prova de respeito. Além do André, foi uma satisfação bater rodas com o psicólogo Léo (excelente figura e ótimo papo), com o Marcão, o Betinho, o Davi, o Marcel, o Julierme, o Everton e os demais colegas de clube. Tanto quanto o jogo em si, o 3º tempo foi ótimo. Dá para chamar assim, pois foi depois da partida e deu para conversar bastante. A diferença é que foi um 3º tempo necessário e técnico: destrocar as traquitanas de jogo para voltar às cadeiras comuns, do cotidiano.

Basta ao Careca Furioso fazer outro convite para nos apresentarmos (certamente com muito mais voluntários andantes). Particularmente, voltarei sim, mas não por piedade, caridade ou solidariedade. Sentaria numa cadeira novamente em nome da amizade e da diversão, as mesmas razões que leva qualquer um de nós a calçar um par de chuteiras e ralar os joelhos e cotovelos num campo mal gramado.

Aqueles caras são cascas grossas como qualquer tatu rugbier, é fato. Melindres recheados de preconceito não cabem no trato com eles, mesmo fora de quadra. Têm garra e vibração como todo desportista deve ter. Querem ganhar como qualquer um que se dispõe a competir. Reclamam do companheiro que perde a bola ou do juiz que marca um lateral duvidoso. Discutem, gozam-se e divertem-se estando ali. E é por estarem ali que todos os atletas do BH Quad já são vencedores, sem pieguices. Difícil conceber todos os percalços que eles são obrigados a superar para estarem no Superar pelo menos duas vezes na semana. A cidade não foi feita pensando neles. O mundo não é preparado para eles. No entanto, mais elevado que as barreiras é o prazer de anotar um try, ou evitar um.

BH Quad Força! BH Quad Raça! BH Quad Rugby!

Ah, essa turma é que vai representar Minas no campeonato brasileiro da modalidade. O torneio será disputado em julho em Belo Horizonte. Não dá pra perder.

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EM by Alessandro Travassos | BH Rugby

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