TENHO UM FILHO RUGBIER

TENHO UM FILHO RUGBIER

Tradução: Daniel Alejandro Marolla

Revisão: João Gualberto Araújo Júnior 

Sabe de uma coisa, senhor? Tenho um filho rugbier…

Um dia, chegou em casa com a notícia de que ele queria jogar rugby. No começo, tentei tirar a ideia da cabeça dele. Confesso que, com minha esposa, tínhamos um pouco de medo, achávamos que era um esporte muito bruto e perigoso. Mas, por insistência dele, finalmente concordamos experimentasse – apenas “EXPERIMENTAR”, só isso – com esperança de que, tal como tinha acontecido anteriormente com tudo aquilo que tinha se comprometido, logo se cansaria e abandonaria.

Terrível engano nosso!

Foi aí que começou a empreitada, ou, falando mais apropriadamente, os treinos e logo os jogos (comprar chuteiras, camisas, meiões etc, etc.) Para minha surpresa, o seu entusiasmo não diminuía, pelo contrário, aumentava com o tempo. Até que um bom dia eu disse para minha mulher: “Meu bem, hoje ele vai jogar no clube. vamos vê-lo jogar?”

O senhor não imagina, quando entraram em campo, eu senti um nó na garganta quando vi ele vestido, tão pequititinho, com o uniforme do clube naquele campo imenso… Quando ele viu a gente, pareceu crescer, como querendo dizer: “Olha só! Sou parte do time do clube”.

Logo começou o jogo… Oh, meu deus! O aperto que eu passei! Todos brigando em cima da bola e, quando um conseguia pegá-la, derrubavam-no e começava tudo de novo. No fundo, eu queria que ele não pegasse aquele negócio oval, mas ele pegou… e o mundo todo caiu sobre ele. Quase que entro em campo para salvá-lo. Mas passou a jogada, ele se colocou de pé e continuou a correr com total entusiasmo. E assim terminou a partida.

Para meu maior espanto, vi como ele abraçava os adversários, e desse jeito saiam todos do campo. Olhe, senhor, naquele instante, uma débil luz começou a entrar no meu cérebro e quis saber mais sobre esse esporte que eu desconhecia. Como, após rolar na lama atrás de uma bola, saiam de campo daquele jeito, rindo, comentando o jogo…


Comecei a participar mais regularmente e entender cada vez mais e aprender as suas leis. Assim, o inevitável aconteceu…

Um dia, num jogo (nesse momento eu me achava um erudito do rugby), eu achei que um árbitro tinha se equivocado e me ferido no mais profundo do meu ser. Como torcedor e como pai, fui bater boca com esse árbitro ao final do jogo. Lembro como se fosse ontem: ele era um pouco mais velho do que meu filho, e, quando estava reclamando de sua atuação, vi meu filho, que passava do nosso lado, abraçado com um menino do outro time. Veja só, senhor, eu nunca mais vou esquecer o olhar de reprovação que procedia dos olhos dele, e muito menos daquilo que, mais tarde, ele me explicou em casa:

“Escute bem, pai: me foi ensinado que o rugby é um esporte de cavalheiros, no qual tudo é feito por amor ao esporte, e nós respeitamos e compartilhamos isto. E, se alguém está errado, nós o aceitamos sem questionar, porque em algum dia vou errar também, e todos vão me aceitar do mesmo jeito”.

Já imaginou a situação, senhor? Logo ele completou: “Hoje, o senhor me fez passar vergonha na frente dos meus companheiros e meus adversários, portanto, para tentar reparar o seu erro, vou lhe pedir apenas um favor (nesse momento, pensei que ia pedir para eu não ir mais vê-lo, mas não fez isso) “… o senhor terá que assistir a cinco jogos, e, durante as partidas, fará o sacrifício de não falar nem uma palavra a favor ou contra”.

Juro que tinha tanta vergonha que eu aceitei sem hesitar e, durante esses cinco jogos, considerei que poderiam existir erros, mas, na maior parte das vezes, eu era quem estava errado. E, sem reclamar, não só apreciava melhor a partida, como também tive tempo para me tocar que, atrás de cada apito, de cada árbitro, existe um ser humano, jovem ou velho, que tem uma coisa em comum com os outros: seu grande amor pelo rugby. Esse amor e essa total dedicação não merecem o insulto da dúvida.

Sabe de uma coisa, meu senhor? Essa primeira lição que, sem querer, meu filho me deu é um dos tesouros mais preciosos. Graças a ela, compreendi que, assim como todos, podemos cometer erros, e todos nós merecemos a compreensão dos outros quando erramos de forma honesta.

E acredito que, a partir desse dia, eu melhorei em alguma coisa… eu aprendi a enxergar melhor a vida…

Autor anônimo

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EM by Alessandro Travassos | BH Rugby, Infantil

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