Espírito BHR – O Chaveiro do BHR: Manuel Schiaffino


O CHAVEIRO DO BHR

Por: Daniel Alejandro Marolla
Edição: Luiz Fernando Moura e Castro

Manuel Schiaffino, mais conhecido entre nós como Manolo ou Mañungo, pode ser uma das pessoas mais contrariadas da história do nosso clube… Ele foi o primeiro dos participantes de esta história chamada BHR, que sonhou alto. Quando todos achavam que o time era uma diversão de final de semana, ele pensava grande. Foi designado como o primeiro coach do BH Rugby, e levou a serio. Nada de brincadeiras. Ele preparava os treinos de 15 caras que nem sabiam o que era com certeza o Rugby, como se fosse para treinar aos Springboks, não pela dificuldade do treinamento, mas sim pelo empenho e a preparação premeditada e estudada. Ligava para os jogadores sexta-feira a noite para saber se não tinham caído na balada antes do jogo, e essas coisas que ninguém faz quando não se tem nada. Mañungo, sem ser totalmente compreendido, estava mostrando a esses meninos que Rugby, não é como a pelada com a galera do trabalho. Um homem que conhece o jogo, que se entrega totalmente ao esporte e que sabe quando deixar seu lugar para outros continuarem o caminho.

BH Rugby 2004

Manolo, nosso Manolo, que agora compartilhamos com muito orgulho com o Vitória Rugby, é quem sem deixar de ser ele mesmo, criou grande parte da identidade rugbística do nosso clube.

O exemplo, o batalhador, o amigo…

Com quantos anos começou a praticar o Rugby?

Exatamente com 8 anos, no mesmo dia do meu aniversário, já que 8 anos era antigamente a idade limite para jogar no meu colégio, hoje é 4 anos.

Viajando com seus companheiros de Rugby no Chile.

Por que veio para Belo Horizonte?

Conheci no Chile uma chilena que morava em BH, me apaixonei e vim atrás dela.

Como chegou no BH Rugby?

Jogava futebol toda terça e meus amigos sabiam que jogava rugby. Um deles viu um cartaz na faculdade Fumec chamando para treinar. Passou-me o telefone de contato (era do Pedro Vilela), liguei para ele, conversamos como se nos conhecêssemos de sempre e nos encontramos na Pampulha para treinar num sábado. Lembro que quando ia em direção ao encontro tinha a mesma sensação de quem vai para um jogo. Eram os alvores do time.

Guanabara VS. BHR, Campeonato Fluminense 2006.

Que é o que o BHR tem, que você gostaria que o Vitória Rugby tivesse ou venha a ter algum dia?

É quase impossível que o VRC venha  ter o que o BHR,  já que as pessoas são muito diferentes. Existe a amizade e a vontade que são as mesmas, mas o BHR tem um sentimento de irmãos que vai além de todos os clubes pelos quais passei. Para mim sempre serão minha família, minha casa, meu lar. Em termos práticos quero aqui no VRC ter a mesma gestão do BHR, que é visando o futuro, e claro, incluindo o seven que o BHR não gosta muito, mas que se tornou um esporte olímpico, clube que não o desenvolve na época estival perde.

Agora me embarquei no projeto do rugby feminino aqui em Vitória e tenho conseguido que esse grupo tenha os valores necessários, Na verdade eu não fiz nada, foram elas que escolheram esse caminho. Sinto-me realizado porque conseguimos com as meninas tudo aquilo que vinha passando por minha cabeça e meu coração durante todos estes anos. Elas representam absolutamente todos os valores do rugby, são minhas filhas.

Arbitrando BH Rugby x Niterói 22/04/06

Conte alguma das lembranças mais marcantes que o BHR lhe deixou no peito.

É difícil dizer que uma só lembrança é a mais marcante. Cada vez que me reencontro com o BHR fica na memória esse momento. Voltar a abraçar os amigos queridos.

Creio que uma das coisas mais fortes foi jogar pelo VRC os últimos 5 minutos contra o BHR, o final do jogo e os abraços com garotos que poderiam ser meus filhos e ver que o BHR tinha crescido em todos esses anos e se renovado. É um orgulho enorme o que eu sinto por ter sido parte dessa história.

Defina claramente o que é “Espirito do Rugby” no seu conceito?
Sempre estamos falando de rugby, da forma de jogar, da técnica, do preparo físico e nos esquecemos do mais importante que é o espírito. O espírito do rugby é um sentimento que representa a forma de viver a vida, baseada na amizade, no companheirismo, no respeito, na união incondicional. Todos aqueles valores humanos que nos fazem sermos grandes. O rugby simplesmente é uma forma de sermos melhores como pessoas. Isso está muito acima de um bom passe, um bom tackle ou ter potência ou ter velocidade. É o eixo de tudo.

Final da Copa do Brasil, 07/11/2009 (Foto Maíra Vieira)

Que é o que mais saudade te dá do nosso clube?
Chegar aos treinos 3 vezes por semana e me reencontrar com meus amigos de sempre, que gostam de mim e me respeitam, não que não exista isso aqui também, mas a sensação é diferente. Impossível descrever.

Como primeiro treinador da história do nosso BHR, o que você falaria para as novas gerações?
Que têm de continuar sonhando alto. Investir nas categorias de base, infantis e juvenis. O rugby precisa chegar cedo nas nossas vidas e não no fim da adolescência. Que BH seja uma referência para o rugby brasileiro como hoje é São José dos Campos. Que os meninos que chegam hoje ao clube conheçam a sua história, que saibam quem foram os Bichalak, os Indias Velhas, os Mariscos, os Frodos, os Cipos, os Francismar, os garotos do ex Viçosa, os Cabeções, os Becker, os Mi$$ha, etc. E se orgulhar de tudo que representam.
É um espírito imenso essa nossa história e cada um é responsável por preservá-la para sempre.

Este erudito do jogo e companheiro incomparável em conversas sobre tudo o que envolve o Rugby, é uma pessoa de uma moral inigualável. O Chile tem que ter orgulho de exportar um homem assim, e graças a Deus, ele caiu nos nossos braços. Um exemplo a seguir, um militante impar da ética e dos bons costumes. Manolito é um padre para muitos e um irmão para outros tantos. Dono do elixir que da a juventude eterna, Manuel nos enche de orgulho sempre que nos visita em Belo Horizonte, pois nos deixa relembrar a cada atitude e a cada sorriso, que tipo de homens forjaram a identidade deste clube chamado bulgarmente de BH Rugby, mas para os velhos de sempre, intimamente chamado Família BHR.

Obrigado sempre Manolo!!!

Treinador da equipe feminina do BHR – “as Beagatas”

Depoimento:

Foi no ano de 2007 em que eu tive uma das perdas mais severas de minha vida. No dia das mães ao invés de estar em um tradicional almoço de família, estava no velório do meu melhor amigo, Jean-Louis Boudou. Ele era francês e meu professor/orientador no curso de Geografia da Universidade Federal do Espírito Santo, uma pessoa com quem todos brincavam dizendo que era meu pai.

Eu não havia percebido na época, mas foi também em 2007 que eu ganhei outro melhor amigo. Meses depois do falecimento de Boudou eu ainda estava muito cabisbaixo e choramingão, então para tentar aliviar um pouco minha dor procurei diversificar minhas atividades me afastando levemente dos estudos. Foi neste período em que me juntei a um grupo de pessoas que se dedicavam à prática do rugby (esporte que eu só acompanhava pela TV) em Vitória.

Não fazia muito tempo que aquele núcleo de “interessados” pelo rugby havia sido formado com a ajuda do chileno Manuel Schiaffino, mais conhecido como Manolo. Nos primeiros encontros que participei Manolo não estava presente, pois ainda não havia fixado residência na cidade. Quando nos encontramos pela primeira vez, conversamos bastante e o que mais me alegrou foi o fato de ele ser estrangeiro, tal como Boudou.

Depois de poucos treinos, parecia que eu já o conhecia há tempos… Eram muitas as semelhanças de comportamento em relação ao meu amigo que havia partido. Manolo tem a voz imperativa, é extremamente dedicado a seus afazeres (responsável), gosta de educar e também se enrola de vez em quando com a língua portuguesa!

06/06/2009 – Intermédia BHR vs. VRC – Primeiro jogo do Vitória Rugby fora do Espírito Santo

Nossa amizade se aprofundou e não ficou restrita ao mundo do rugby: Manolo foi um dos maiores incentivadores para que eu finalizasse os estudos universitários. As atividades físico-esportivas me aliviaram bastante o emocional, que como já descrevi, iam muito mal. Uma monografia era a peça-chave para alcançar o diploma de bacharel em Geografia, mas com a perda de meu orientador, algo me bloqueava.

Manolo veio a minha casa e passou a me acompanhar de perto. Sempre ele queria saber o que eu já havia feito, o que restava, o que estava certo ou errado. Ele me chantageava; dizia que eu só seria aceito no grupo de rugby se terminasse a monografia. E esse argumento me alimentou durante algum tempo até que vi o estudo pronto. Meu principal auxiliar da apresentação foi ele, que foi treinar um grupo pela manhã e em seguida largou-o para me acompanhar. A missão foi cumprida com êxito.

Se o ditado diz que “quem ama educa”, os integrantes do time são amados por este homem, que tenta polir com rigorosa disciplina aos seus discípulos. Para Manolo, o que interessa é que virem gente de bem, não só bons jogadores. Assim como fez comigo, a todos os meus colegas de time ele tenta acompanhar na vida extra-campo, tal como um pai fiscaliza a prole. E eu me sinto como se fosse seu filho, algo que imagino ser semelhante para os demais integrantes do Vitória Rugby – que é a sua família no Espírito Santo.

João Paulo “Árabe” Minchio

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EM by Luiz Castro | BH Rugby

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