O Rugby como Esporte

…”É um meio para Divertir, Relacionar, e também, Educar”…

Tradução: Alejandro Marolla e Luiz Fernando Moura e Castro

Fotos: Maíra Vieira

 

Helena Mello ministra o treino do infantil 2010 (foto de um pai).

Considerando que este artigo vai dirigido, fundamentalmente, aos encarregados das equipes, nada melhor então, que começar antes de mais nada pelos princípios históricos e filosóficos de nosso esporte.

Segundo a história escrita, o jogo do Rugby nasceu, quando Williams Webb Ellis, fazendo caso omisso das regras do Foot-Ball de então, tomou a bola com as mãos e começou a correr com ela num Colégio da Cidade de Rugby, na Inglaterra. Na realidade o jogo nasceu muitíssimo tempo antes e foi se transformando de um determinado jeito até chegar ao Rugby atual em que, sem temor a equivocar-nos, podemos assegurar que é o jogo mais equilibrado, mais balançado e mais perfeito que existe para o Homem.

É assim que neste jogo os princípios éticos, filosóficos, técnicos e táticos estão permanentemente entrelaçados configurando um esporte absolutamente único. Pretender ensinar o Rugby partindo de bases exclusivamente técnicas ou táticas pode levar a um erro fundamental e pretender ensiná-lo unicamente baseado em seus tradicionais princípios filosóficos que conformam o espírito do jogo pode levar também a um erro, já que não se consegue assim materializar coisas que podem ser conseguidas através do jogo. É por isso que esta introdução é referida aos princípios fundamentais do jogo; princípios que nós, como encarregados de transmiti-los aos jogadores, nunca devemos perder de vista para bem e glória do Rugby amador. Em seguida, como aplicação à prática desses princípios fundamentais, aparecem princípios técnicos que nos ajudam justamente ao desenvolvimento do que a gente pretende de nosso jogo dentro e fora de um campo.

Treino do time juvenil, 10/10/2009.

Nunca podemos esquecer que os treinadores e colaboradores de equipes são os que estão em maior contato com os jogadores e não os dirigentes, nem os árbitros, o que significa que os técnicos são os primeiros responsáveis em manter o espírito e as tradições do jogo.

No Rugby, os encarregados das equipes não devem procurar desculpas diante de decisões dos árbitros, como também não nas decisões dos dirigentes nas comissões de disciplina.

A gente tem que assumir a responsabilidade de que o jogo se transmita de geração em geração, como vem sendo feito até agora. Somos os que temos que aceitar e deixar de lado os pequenos gostos, desejos ou opiniões pessoais em áreas da defesa do Rugby, de seus princípios e de suas tradições. Não podemos temer que o desenvolvimento técnico do jogo, o progresso tático e a maior preparação possam afetar esses princípios básicos, se eles realmente foram entendidos por nós e depois transmitidos corretamente aos jogadores no campo, no terceiro tempo e também em todas as oportunidades que nos encontremos com eles, ainda que fora do clube.

Existem muitas formas de enfocar a parte fundamental e filosófica do jogo. Há muitas formas de enunciar os princípios fundamentais e todas foram utilizadas com êxito ao longo da vida do Rugby.  Desde meu ponto de vista, se condensam numa só frase que diz: “O Rugby é um meio e não um fim em si mesmo”. E imediatamente surge a pergunta: Um meio para que? É também nessa hora que podemos responder de muitos jeitos diferentes, mas vamos destacar as três coisas básicas:
1- Um meio para educar.
2- Um meio para relacionar.
3- Um meio para diversão.

Campeonato Mineiro – BHR vs Uberlândia 22/05/2010 – Jacaré e Soldado.

Um meio para educar: porque: “desventurados aquele esporte que não deixa alguma coisa transcendental na vida de quem o pratique”. Fala-se certamente, que um esporte vale pela educação que deixa naquele que pratica essa atividade, e o Rugby faz, porque as características próprias do jogo – que são principalmente de adversidade – ensinam a quem pratica, a treinar e vencer as adversidades.  Não é verdade que os homens não tem medo; não é estranho tê-lo, mas o interessante é aprender a vencê-lo, e o Rugby justamente dá a oportunidade de vencer o temor.  Por que o Rugby educa? Primeiro pelo que acabo de dizer, após porque nele se faz um culto do jogo em equipe, então aprendemos a viver em função dos demais, um aprende a sentir mais prazer em se doar que em receber, um aprende a se sacrificar ainda que seja arriscando o próprio físico – pelo interesse máximo que existe no campo que é a equipe.

Treino do BHR – 12/09/2010 – Helinho e Bolota

Por que educa o Rugby? Porque foi o primeiro e quase único esporte que descobriu uma verdade muito importante que diz que no Rugby (como seria qualquer outro esporte), não se pode jogar sem adversários. Um pode conceber o Rugby sem união, sem dirigentes, sem treinadores, sem jornalismo, sem público e ainda sem árbitro. Embora, não se pode conceber o jogo de Rugby sem adversário. Surge então como conseqüência natural dessa verdade a tradicional reunião das equipes após do jogo que na América do Sul chamamos felizmente “Terceiro Tempo”. É a maneira de agradecer uns aos outros a oportunidade que tiveram de desfrutar do jogo dentro do campo. O Rugby educa porque num mundo materialista, é muito difícil evoluir sem ter que cair no lucro pessoal, permanentemente está mostrando ao jogador que por mais brilhante que ele seja, não poderá fazer nada sem a ajuda da equipe. Também, ensina ao praticante que no Rugby que queremos e devemos defender, vale mais o Homem do que o jogador. O Rugby não fomenta nem fomentou nunca jogadores que chutem bem, que passem bem ou que formem bem um scrum, pelo contrario, fomenta sempre homens de bem que trabalhem, estudem e que, como complemento das suas atividades principais, tratem de chutar bem, tratem de passar bem e tratem de formar bem um scrum. O Rugby sempre ficou orgulhoso de ter grandes homens e sempre destacou, junto à condição natural do jogador de fazer as coisas bem dentro de campo, a atividade privada desse jogador. Temos exemplo de grandes jogadores que se destacaram no campo e que também produziram coisas realmente importantes para seu país, a sociedade, a família, etc. O Rugby nunca quis ser o objetivo final de quem jogava, e sim o meio pelo qual o homem, ao mesmo tempo que melhorava seu físico e sua mente, melhorava espiritualmente. 

O Rugby vive uma de suas maiores batalhas, do próprio jogo com seus princípios e tradições contra a pressão do ambiente exterior por meio de gente que busca tirar lucro do jogo. Desta batalha, o Rugby emerge como verdadeiro esporte amador, emerge triunfante graças a gente que durante muitas gerações promoveu o princípio de que o Rugby é um meio e não uma finalidade.

 

10/10/2009 – Final do treino feminino do BHR.

Também falamos que o Rugby é um meio para relacionar e, justamente, o fato de que não se pode jogar Rugby sem adversários e porque existe um pacto de cavalheiros com o adversário – de jogar o mais duro possível dentro do campo, já que quanto mais duro é o jogo, melhor é o jogo – estabelece entre quem decide viver esta vida apaixonante do Rugby amador uma relação que não se apaga facilmente. O Rugby se vangloria de que são muitíssimas mais as amizades e as relações, que os aborrecimentos que possa provocar. O jogador de Rugby que encontra num adversário ocasional um homem duro e honesto no campo, depois do jogo valoriza nesse oponente um amigo para toda a vida. O Rugby fomenta as relações, amizades e uniões mais fortes. E se não, pensem na quantidade de pessoas que conheceram e que não foram à escola com vocês, não pertencem ao mesmo âmbito de trabalho, nem se encontram tão freqüentemente como a outros e que, no entanto, sentem por eles uma afinidade muito difícil de definir e que se dá porque o outro é um rugbier como você.  Sem dúvida nenhuma, um meio para relacionar, um meio para vincular pessoas, povos e sociedades aparentemente muito diferentes, mas quando encontram o ponto comum que chama-se Rugby, todas essas diferenças se aplanam com muitíssima facilidade.

07/11/2009 – San Diego aplaude o bicampeão da Copa do Brasil.

O Rugby existe para relacionar e devemos saber isto para ver o oponente justamente como um adversário e não como um inimigo. Isso não quer dizer que não fomentemos o Rugby bem ensinado, que é tratar muito duro e lealmente o oponente ou o adversário no campo, mas também temos que dar o exemplo de que conseguimos desfrutar dessa partida e dessa tarde de Rugby ou dessa turnê graças a esses adversários, e estendemos nossa relação além do jogo mesmo, à vida de cada um de nós.

Mas uma das coisas mais importantes que o Rugby tem são as tradições que respeitam as hierarquias e os cargos, os capitães e os dirigentes de anos. No Rugby tudo isto é visto como verdadeira diversão, com certa leveza, sem cara fechada, sem solenidade militar. No Rugby ainda nos cargos mais altos, sempre há lugar para brincadeiras, para a diversão, porque fundamentalmente, dentro e fora do campo o Rugby é para se divertir.

Então o Rugby é um equilíbrio perfeito, e desse jeito um homem que entra com tudo na vida do Rugby amador, se educa, melhora como indivíduo, relaciona-se e conhece pessoas de diferentes lugares, se doa e recebe de outro, e ao mesmo tempo, fazendo estas duas coisas muito importantes, se diverte. É um homem que desfruta porque o Rugby é jogo e tem que seguir sendo um jogo e não um trabalho. De nada vale um coach ou um jogador de Rugby que não tenha bem claro isso todo, porque poderá saber muito de técnica e muito de tática, mas num dado momento vai fazer água em algum destes princípios fundamentais que são os de toda a vida do Rugby e que nós temos a obrigação de manter.

10/07/2010 – Final do Campeonato Mineiro, os times se cumprimentam antes de ir ao 3º tempo

ESTE ARTIGO ESTA DIRIGIDO AOS ENCARREGADOS DAS EQUIPES, MAS ACREDITAMOS QUE É MUITO IMPORTANTE QUE OS JOGADORES, FUTUROS JOGADORES E PRINCIPALMENTE AS FAMILIAS O LEIAM.

Ing. Carlos Villegas 

EM by Luiz Castro | BH Rugby

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