O scrum como filosofia de jogo

    “O scrum junto com o tackle são dois aspectos distintivos do jogo do rugby. Na filosofia do San Isidro Clube, o scrum é a base do jogo dos atacantes, é o ponto de partida para a construção de um pack e um meio ideal para conseguir a disciplina individual e de conjunto dos forwards. Deve ficar bem claro que o scrum é um meio e não um fim em si mesmo, onde todos os atacantes aprendem a atuar em conjunto ao serviço da equipe. É muito importante a obtenção da bola nesta formação, mas ainda mais importante é ganhar a batalha psicológica que se propõe cada vez que dois packs entram em contato para disputar um scrum.” 

   Pelos treinadores argentinos Juan José Angelillo e Horacio De Martini  

  

foto: Mayra

 

 Para saber um pouco mais sobre a filosofia do scrum, podemos dar uma olhada no pensamento desses dois treinadores:  

 

  JUAN JOSÉ ANGELILLO 

  Hooker que começou no do San Isidro Clube (SIC) em 1984, prolongando sua atuação até fins da década do ’90, também integrou o selecionado de Buenos Aires e Los Pumas.  

  Devemos entender que a formação (o scrum) é só a ponta do icebergue, a formação é o que se vê, mas por trás disto existe todo um espírito de jogo, uma forma de fazer as coisas que vão além da simples formação, mas que fazem o jogo em seu conjunto, fazem o rugby, formatam uma maneira de encarar cada desafio.  

  Não é o aspecto formal o relevante do scrum, quando o SIC começou com esta filosofia muitos clubes, especialmente do interior, tentaram copiar o que nós fazíamos, desde o aspecto técnico, a posição do corpo, a posição das pernas, o empurrar de modo coordenado, a “abaixadinha” etc. Marcou-se muito a técnica e as formas, mas não conseguiram ver que por trás da formação existe toda uma cultura.  

  Existem elementos que com o convencimento se transformam em crenças muito difíceis de enfrentar: Fé + Confiança + Atitude, transformam-se num círculo virtuoso que melhora o treinamento e conseqüentemente o jogo, e não só melhoramos tecnicamente o scrum como um grupo mas também em seus subgrupos (primeira linha, segunda linha, terceira linha, eixo esquerdo, eixo direito, eixo central).  

  Começamos a compreender e aplicar aspectos que não têm a ver com a técnica mas fazem parte do todo, aprendemos a respeito da solidariedade, aprendemos a respeito da comunicação, aprendemos a respeito do pack como conjunto de jogadores que lutam por um objetivo comum.  

  Esta cultura promove valores que são aplicados em qualquer aspecto de nossas vidas; valores de concentração, de visualização, de comunicação; promovendo a atitude de antecipar-se ao que vai acontecer para estar preparado e alerta antes que as coisas sucedam.  

  O primeiro que se ensina do scrum, são coisas que não têm a ver com ele, como por exemplo ter a indumentária apropriada para a prática, desde a camiseta até as chuteiras, e desde o calção até as travas apropriadas.  

  E tudo isto repercute diretamente na performance que teremos depois diante das condições de adversidade da partida, mas não é tudo. De fato, num jogo, quando temos uma situação de scrum, a equipe do SIC começa a se posicionar bem antes, fazendo com que a cultura e a crenças, bem como nossa filosofia e nossos valores surjam espontaneamente; visualizamos com antecipação o que vai ocorrer, e são oito vontades que conhecem à perfeição qual é sua responsabilidade e tarefa. Dessa forma convergimos para um melhor desenvolvimento.  

  No SIC ensinamos princípios e valores que vão ser utilizados durante toda a partida e em todas as situações que ocorram. Com estes princípios e valores podemos compreender coisas que de outra maneira seria impossível. Compreendemos que quando um jogador está tecnicamente abaixo do pack, todos os fowars sofrem, e quando o pack sofre o Time sofre.  

  Tudo é simples mas necessário, os detalhes fazem ao diferença no scrum.  

  Temos a cultura do detalhe, da atitude, da predisposição, do ânimo.  

  O scrum tem a particularidade de fazer crescer estes valores, e os jogadores melhoram sua atitude, isso os leva a melhorar as equipes. Obviamente, quando melhoram as equipes melhoram as categorias de base e assim conseqüentemente conseguimos melhorar o jogo do clube todo. Tudo isso apontando ao crescimento e a educação, e o SIC é um clube que cresceu a partir de seus jogadores e a partir da educação.  

  Partindo de tudo o que falamos é que podemos começar a falar da técnica do scrum. Sem compreender o antes mencionado, só temos uma parte de toda esta cultura. Recordo que jogando no selecionado de Buenos Aires, tocava-nos jogar com Tucumán em campo do CASI. Ali um dos segundas linhas era Brian Anthony, ainda jogador de San Andrés. Enquanto estávamos no vestiário notei que as travas de Brian não eram ideais para o estado do campo, eram boas travas mas não para essa partida. Então lhe pedi que mudasse as travas, e assim o fez. Durante um longo momento estivemos a 5 metros do nosso in-goal, defendendo o que parecia uma iminente derrota. Num momento, já terminando a partida, sancionam um scrum a favor de Tucumán que tinha um pack poderoso, … e o ganhamos. Conclusão: se Brian não tivesse mudado essas travas, teriamos terminado espalhados dentro do nosso in-goal. Por isso dizemos que os detalhes são os que desenvolvem nossa cultura. Chegar a tempo, estar atenciosos, concentrados, com a indumentária correta, com predisposição, com atitude, com espírito de ajuda, são detalhes que marcam a diferença no final. Não é a técnica que marca a diferença mas “como” fazemos as coisas.  

 “No momento que achamos que a temos (a bola) a perdemos”, isto nos ensina a cultura do SIC. O conceito é saber que nunca estamos perfeitos, sempre há mais,… no SIC culturalmente nunca ficamos quietos. 

  Obviamente o que tem que ficar claro para poder ser transmitido é o “por que” das coisas. A explicação pedagógica de hoje deve incluir o sentido, o por que. Caso contrário não atinge, não soma, não educa. Não se pode ensinar mística senão com uma mensagem clara e convincente. Filosofia e jogo deveriam ser uma coisa só. 

  Hoje é necessário fazer uma síntese entre Valores, Cultura, Princípios e Técnica. 

 HORACIO DE MARTINI 

 Ex jogador do plantel superior durante a década do ’60, treinador de equipes juvenis e da primeira equipe junto com Dom Catamarca Ocampo e Veco Villegas na década do ’70. Participou da primeira mudança do San Isidro Clube (SIC) e foi membro do plantel que viajou a África do Sul convidado pelo rugby desse país nos início dos anos ’70. Membro da Comissão Diretiva do SIC e exitoso homem de família e negócios. 

Nós chegávamos ao clube e sabíamos que quem nos dirigia, cuidava de nós. Convivíamos com os fundadores do SIC que nos diziam que este era o melhor clube do mundo. Tinha um princípio de amizade muito profundo. 

 O SIC não tinha uma escola ortodoxa de rugby, o único que estava claro era que os Fowards deviam conseguir a bola e os Backs correr com ela. Até que se decidiu trazer a Dom Francisco Ocampo que já tinha passado por outros clubes ( Obras, Olivos, San Fernando, Liceo ), mas nunca encontrou matéria prima para desenvolver sua famosa técnica de Scrum. E no SIC encontrou, encontrou bons jogadores, inteligentes e com fome de melhorar. E ali começamos a aprender esta cultura, esta filosofia, esta forma de fazer as coisas. Dom Catamarca era um filosofo que não só ensinava técnica de Scrum, como também tudo relacionado aos valores e princípios. Ali aprendemos dois aspectos básicos: 

  • Aprendemos graficamente que o scrum devia ser um único dorso (costas).
  • Aprendemos que a flexão devia ser homogênea.

 Um ponto importante era que tudo isto funcionava apenas se existia concentração e isto significa que tanto o adversário como o juiz, não existiam. Não se falava com o árbitro, nem se discutia com o adversário, nem podia ter má condutas para garantir a concentração. E com o tempo isto chegou a ser um caráter distintivo das equipes do SIC, sua disciplina e concentração. Este pequeno detalhe fez com que muitas equipes do SIC sejam consideradas um exemplo a copiar.

 Poderão mudar as épocas e os tempos, mas o que nunca vamos permitir é que se alterem os valores principais deste clube.

 Princípios do treinador do SIC

   A) Liderança. Ser líder da divisão que me tocar

   B) Capacitação. Devemos estar à vanguarda do conhecimento

   C) Assumir riscos para o melhoria da equipe

 Esperamos que isto nos possa servir para melhorar a qualidade de nosso jogo e por suposto para criar mais e melhores homens de rugby de bem.

scrum do BH Rugby na final do 1º Campeonato Mineiro – 2010 Foto: Mayra

  

 Tradução do castelhano ao Português Daniel Alejandro Marolla   

 Edição Luiz Fernando Castro   

 Belo Horizonte Rugby Clube

EM by Luiz Castro | Rugby Brasil

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